terça-feira, março 18

Poema de simulação

Os títulos já se perderam nos bolsos dos costumes.
O esquete termina.
Um comediante morre de rir.
Cai a cortina de trama fina,
Feita de papelão, e não de veludo.


Sozinho no camarim observa a maquiagem dissolver-se:
O vermelho-sangue do batom tomado dos lábios pelo rancor,
A pureza do guacho branco escorreu salgada dos olhos à boca,
O nariz plástico triturado sobre a penteadeira.
Não sobrou pierrô para o próximo espetáculo.


No espelho há um homem de cara limpa e barba feita
Observando o fenômeno da reflexão.
Os pagantes exigem as risadas até o último segundo,
Mas, depois da atração, sozinho no camarim,
Sem um palhaço que o faça rir,
Gargalha sozinho imaginando a tristeza
De quem precisa pagar para ser feliz.

terça-feira, dezembro 3

Pedras sobre pedras



     Eu me lembro.
     O dia em que eu soube.
     Viúvo de um casamento cigano.
     Ela tinha o rosto sereno, disseram.
             
     Eu não me lembro do enterro.
     Não pude ir.
     Nem me lembro de sua boca rasgada.

     Eu me lembro.
     Linhas brancas e noites escuras.
     Favelas e festas.
     Abstinência. Solidão.
     Não souberam.

     Não me lembro do que me fez parar.
     Nem do que eu disse para os outros.
     Acho que apenas sumi.

     Eu me lembro, sim.
Ela, caída no chão, chorando.
     Eu sentado na varanda, fumando.
     Ela implorava.
Eu mandei que juntasse suas tralhas.
Ela ficou mais um ou dois meses.
Não me orgulho disso.

     Não me lembro de ter chorado por ela.
     Nem de que fim levou seu boneco.
     Nem suas fotos.

     Eu me lembro.
Abandonei tudo.
     Saí da cidade.
     Larguei dois amores e meio.
    
     Não me lembro de sentir remorso.
     Não me lembro de querer voltar.
     Não me lembro de como era.

     Eu me lembro.
     Aprendi a cuspir fogo, e malabarismo.
     Vi a casa cair pro meu lado.
     Também me lembro do banheiro.
     As lágrimas no chuveiro.
     A definição de clichê.
     Elas me lembram daquelas que eram vermelhas.
     Oito anos secos depois e eu não me esqueci.
     Eu não me lembro de como se esquece.
     Não me lembro de como sobrevivi.
     Nem de uma infância feliz.
    
     Eu me lembrei.
     Agora quero esquecer.
     Mas me lembro que esqueci.
     Esqueci de aprender a perdoar.
     Esqueci como confiar em alguém.

     Minha memória não anda boa, sabe?

domingo, novembro 17

business man
make as many business
as you can
you will never know
you're trying to pay
many coconuts
to see 
the right 
kind of abstraction

quinta-feira, outubro 24

Atlas esmagado pelo peso de um grão de areia
E curvado como um pau-de-sebo barroco
Garoto tentando subir e caindo e quebrando os ossos
E chorando em um banheiro imaginário para que ninguém veja
Porém persistindo pelo sebo ou pela lama
Com a dor e a força das novas cicatrizes
Movido à óleo e ódio feito carro velho em ladeira
Empurrando o peso das eras como Sísifo
Ainda que sabendo ser só um castigo divino
Que sem motivo não foi expiado no sacrifício de Cristo
E por isso pago às prestações de juros extorsivos
Para evitar a fúria celestial do maior agiota da História
Um urubu urbano que só sabe se empoleirar sobre prédios
Observando o movimento dos objetos estranhos na rua
Procurando algo para se alimentar talvez um rato
Talvez os restos homem morto quem sabe pelo stress da terrível
Rotina-casa-carro-trabalho-almoço-trabalho-carro-casa-jantar-cama
Talvez um rato mesmo
Ou um ser tão insignificante que se proponha a se esconder
Sob mares de papéis recadinhos e papelões
Atormentados por Poseidon que sacudindo suas mãos
Lança tsunamis de conflitos sobrepondo-se uns aos outros e
Fundindo-se em avalanches líquidas como o alicerce de uma casa
Jogando com o barco de Ulisses um videojogo inocente
Uma criança jogando sal em uma lesma ou apedrejando gatos
Para descobrir o que significa violência gratuita ou inocência
Ignorando que nisto reside um dilema do tamanho do grão de areia
Que sobrepuja Atlas e o faz contorcer-se como um humano
Baleado na barriga caído sobre um cemitério de utopias à noite
Sangrando sal e chorando baixinho lágrimas de chumbo
Entre gritos de ódio e pedidos por ajuda mas como Tântalo
Pode apenas roçar os dedos nas mãos amigas e estas lhe escaparam
Implorar para outros ouvidos e estes se tornarem alheios
Sem opção além de observar a vida evaporando para formar
Caminhos serpenteantes e salinos através do vômito seco
Enchurradas e baratas e tingindo ratos de vermelho
Deixando para trás toda a pouca dignidade acumulada por uma vida
Na esperança de conseguir voltar para o corpo
Seguindo a trilha de miúdos como João e Maria
Mas fracassando como o garoto do pau-de-sebo
Com a diferença de não ter outra chance com ou sem cicatrizes
E tentando encontrar a ironia disso tudo
Apenas para descobrir o buraco de uma boca-de-lobo
Como uma criança apedrejando gatos descobriu o efeito da morte
Aquele homem agora uma criança filha de alguém
Descobre-se solitário em um bote sob a fúria de Poseidon
Carregando o peso absurdo como Atlas
De uma vida que se esvai como um grão de areia em uma ampulheta.

sábado, outubro 27

À metade afastada


Uma parte de mim foi arrancada.
Perdi-a austero.
Nada que importasse
Porque nada importa.
Nada existe, Górgias, nada existe.
Nem isso,
Pois ao pronunciar “nada”  já isto se preencheu e...
Foi-se.
Perdi-a também.

A manhã,
E a manhã,
E a manhã
Rasteja pelas minhas veias, e eu chamo-a de sangue.
Chamarei-a assim, porque esqueci-me do futuro.
Deixei o presente de lado, esquivei-me.

Nada deixou-me mais
Petrificado do que
...
Foi-se.
Não importa mais também.
A todo momento:
“Uma parte de mim foi arrancada.”

Mesmo que eu deixe este poema de lado,
Ou ignore o resto,
Borre as letras com lágrimas,
Sangue, ou qualquer outra bobagem,
A verdade continuará lá
Observando-me por trás das minhas-retinas-tão-fatigadas,
Dilacerando minhas infinitas fugas,
E me pegando com seus guindastes sofísticos.

Ainda que eu não esteja lendo isto,
Destrua as palavras, ou páginas se preferir,
A verdade continuará me espreitando sorrateiramente.
E, vez por outra,
Espalhando seus tentáculos pelo meu corpo,
Arrastando-me para perto,
E com seus olhos imensos rosna-me gentilmente:
“Você se esqueceu de mim, mas eu não me esqueci de você”.

terça-feira, julho 10

Cuco


                Me sinto como um relógio.
                Cheio de engrenagens autômatas
                Que giram incessantemente fazendo barulhos.

                Tic, estou bem.
                Tac, nem tanto.
               
                Todas as roldanas e rodas
                Trincam como meus dentes e rangem como meus ossos.
               
Tic.
Tac.
Tic.
Tac.

                Sou um relógio que não marca as horas.
                Não tenho baterias.
                Sem devoluções.
                Sem trocas.

                Quebrei, e não posso culpar o vendedor.
                Apenas...
                Tic tac
Tic tac
Tic tac
Tic tac para sempre.

sábado, junho 23

Para Louis


Eu vejo árvores carbonizadas, rosas atômicas também.
Vejo-as sendo comidas por mim e por você,
E penso comigo mesmo: “Que mundo maravilhoso”.

Eu vejo o céu cinza, e lembro que um dia via nuvens.
O dia negramente amaldiçoado, a noite iluminadas eletricamente,
E penso comigo mesmo: “Que mundo maravilhoso”.

As cores do arco íris tão corrosivas no céu
Também estão na cara dos transeuntes.
Vejo amigos apertando as mãos, dizendo: “Tudo bem?”.
Eles dizem, na verdade: “Tenho pressa”.

Ouço bebês sufocados com seus cordões umbilicais, assisto-os morrer.
Eles aprenderiam mais do que gostariam,
E penso comigo mesmo: “Que mundo maravilhoso”.