quarta-feira, fevereiro 17

O outro lado do giro

O bastão em chamas girando, o cheiro característico de querosene, o barulho do fogo em rotação.Tudo é muito bonito dos olhos da platéia, até a fumaça preta faz parte do espetáculo, até mesmo os erros.Mas dos olhos do malabarista é bem diferente.
Um malabarista experiente sabe que a platéia não gosta de ver os infinitos truques que ele pode fazer mas que na verdade a platéia adora ver um erro, ver o bastão girando sem controle por alguns momentos e o medo toma suas mentes. Mesmo sabendo que o perigo é pequeno ninguém fica a vontade com duas bolas de fogo girando livremente, ainda mais quando elas resolvem rodar em direção a você.
Cada mínimo movimento deve ser primeiro pensado calculado e medido para caber no tempo em que o bastão fica no ar, um segundo a mais e ele sai do seu eixo e espirala para o chão.Contudo cada movimento feito sem erros cria uma sensação de conquista, uma sensação de que todo o treino valeu a pena mesmo que por alguns momentos.
Uma platéia boa é uma que nunca tenha visto o espetaculo antes, isso os deixa mais crédulos e inocentes, porém quanto mais crua é a platéia mais esforço é preciso para manter sua atenção na apresentação, mas nada que algumas manobras bonitas não resolvam.
Mesmo que a platéia aplauda e solte gargalhadas honestas do show de sinestesia, quando a madeira acerta o chão é que se vê os mais exigentes, mais invejosos e talvez os maiores apreciadores da arte abrirem aquele sorriso escondido, calado quase imperceptível quase que dizendo "Era só uma questão de tempo".Um gesto simples de inveja ou de superioridade falsa.Nesse simples ato é que se vê a natureza humana,no fundo não querem ver o truque dando certo, provavelmente já o conhecem, mas querem ver tudo dando errado,o malabares sair em espiral até o canto do picadeiro incendiando todo o circo.
Um espetáculo é feito pelos seus mais maravilhosos truques mas só é único pelos seus defeitos, ou seja por mais que o malabares gire, a graça mesmo está em rir de quando ele está parado, assim como quando ocorrem acidentes em corridas, é bem mais divertido ver um homem correndo de fogo invisível do que carros girando por um circuito ovalado.
Assim como todo bom palhaço a platéia gosta de ver o circo pegar fogo, de coisas dando errado. Mas em alguns circos é fácil de ver mágicos que usam disso para impressionar ainda mais com um truque talvez não tão grande, se parecer que a serra foi trocada e a assistente foi serrada ao meio de verdade então o espetaculo será de primeira linha.
Em uma analise mais a fundo o malabarista tem de se preocupar não só em fazer seu trabalho mas também em agradar o publico que o assiste e o motiva a ir para a frente, do que seria o malabarista sem sua platéia e o que a platéia assistiria sem o malabarista? Os dois lados da mesma moeda.

No fim do espetaculo só ficam algumas coisas: As lembranças do espetaculo, um palhaço cansado, uma platéia satisfeita e o cheiro do querosene. Depois disso algumas moedas são jogadas junto com elogios e a cortina vermelha cai sem que seja incendiada e alguns voltam pra casa com a certeza de que da próxima vez o malabarista vai pôr fogo no circo.

Um comentário:

  1. nussa dosi lado de uma moeda onde ambos eh sustentavel pela ambição da arte

    ResponderExcluir