quinta-feira, fevereiro 10

O artesão

  Inspiração não vem de graça. Inspiração não é bobagem. Inspiração é transpiração interna. É um trabalho de mente, é uma constante. É algo a se almejar, todos os dias, olhar para dentro e procurar. Inspiração é como uma vela, consome a parafina lentamente, teima em se manter até finalmente acabar, mas sempre existe outra vela. 
   A vida é a velaria, com suas infindáveis montanhas de cera, nas quais se esculpe as velas que mais tarde derreterão pra transformar a Cera em Inspiração. O artista nesse caso não só faz a sua inspiração, como também a destrói colocando no real o seu insight, transformando a chama em obra. 
  A Cera é o conhecimento acumulado, que nunca acaba, nunca se sabe tudo, nem se fez de tudo. Embora pode parecer que todas as velas sejam iguais, não é verdade. Cada vela tem a sua identidade, cada uma com características únicas, que cabe ao artesão adequar cada vela pra sua finalidade, não se pode fazer uma vela de funeral com cores chamativas e enfeites de metal.
  O Pavio é o motivo, o porquê da cera deixar o estado dela e transcender pro estado de chama, portanto o pavio é o grande truque, por que alguem faz arte? Pra que serve um poema? Por que alguem aprende a tocar um instrumento?
  A Chama é a obra, aquilo que exige um sacrifício da vela, que consome aos poucos a vela toda, até sobrar apenas um toco queimado, uma linha de raciocínio que não tem mais como ser aproveitada, por ter se esgotado todas as possibilidades daquela Inspiração.
  Cada vela tem um motivo, seja pra enfeitar uma noite à dois ou chorar um corpo, seja pra iluminar o local ou pra ajudar  a ver no escuro. Sempre tem uma finalidade ao acender-se uma vela, ninguém acende velas pra ver como queima bonita.
  O artista é o artesão, transformando a cera na vela e fazendo da vela a obra final. Pega a cera, molda ela depois acende. Busca conhecimento, molda em sua arte, se inspira e ascende ao estado criador de Chama, ou seja, com o conhecimento que ele aprendeu, fará aparecer uma obra que será tão parte dele quanto do mundo que nos rodeia.
  Ser artesão é um trabalho infindável, por mais que façam-se velas, sempre existe mais uma vela a ser feita, sempre existe um poema, uma tela, uma música. Enquanto se está vivo, fará o que ama, não importa por quanto tempo. Um artesão que ama o que faz, continua fazendo apenas por amar seu trabalho, não é necessário maiores explicações.
  Ser artesão é ser sofredor, por nunca se ter o prazer de poder dizer: "Agora sim, já não tenho mais velas pra fazer. O mundo está abastecido". Por isso todo artista é frustrado, por sempre ter mais um show a fazer, não existem velas para até o fim dos tempos. Nem poemas. Nem músicas. Nem nada. Existe apenas uma demanda ininterrupta de novidades, de coisas que nunca foram feitas, de velas! Milhares e milhares de velas.
  Ser artesão é lutar contra tudo que faz sentido, com a energia elétrica tem tantos modos mais práticos de se iluminar um pensamento! Por que alguem buscaria uma vela se com um dedo aperto um botão e consigo toda a luz, todas as informações que dizem ser tudo que necessito? 
  Como se o mundo fosse movido à idéias, é necessário estar sempre moldando suas próprias velas, criando novas, e particulares, inspirações que levem a novos pontos de vista nunca antes cogitados. Sejam por meios de livros, músicas, telas ou qualquer outra forma de arte.
   Existem velas de todos os tipos, idéias de infinitos jeitos: Velas vermelhas, azuis, brancas, longas, curtas, largas, de sete-dias, de um segundo. Inspirações não tem limites nem regras e não precisam de explicações, apenas são. Por serem assim, simplesmente o artista não tem de questionar o por que de fazer arte, apenas fazer. Por fazer. Seja porque o mundo precisa de velas, ou porque o artesão precisa fazê-las.
  TV nenhuma derruba um bom livro, uma boa inspiração, uma boa vela e meia luz à dois. Por mais antiquada que seja essa ambição, não é só porque existem métodos mais eficazes de transmitir informação que os modos mais simples perdem o lugar. A TV é barulhenta e cheia de mensagens subliminares. Mesmo as músicas estão sendo corrompidas pelas mensagens que grudam em nossas mentes.
  Procura-se o conhecimento, vivo ou morto.

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