quarta-feira, março 30

Urbanos Lobos

A cidade esfria
Nos sombrios cantos
Entre cabos e fios
Desabam em prantos

Sentimentos tolos
Cinzentos lobos
Cavando poços
Enterrando ossos

Dores gritantes
Semelhantes enterrados
Perdidos amantes
Pobres coitados

Condenados a vida
Criado pra morte
Esperança perdida
Entregues à sorte

A cidade cobra
Falta sobra
Somos todos
Urbanos lobos

domingo, março 27

O Jardim

Floresceriamos
se florescessemos
florescendo
floresceremos

sábado, março 26

Abram alas para o futuro
A vida é bela
Mas o amanhã é duro

domingo, março 20

Silêncio ritmado

Toda noite é quieta,
hoje parece que pior.
A cidade morreu na certa.
A noite devia ter outro barulho,
além dos relógios marcando os segundos
que não voltam mais.

Vide verso vida.

Vou vendo, vasculhando vielas
Viciado em verdade,
Véu de vibrantes vislumbres.
Vou vago de vaidade,
Vertendo versos verborrágicos.
Vivendo à vontade,
Vinha, mas vinha velho.
Vagando vagarosamente
Viva vergonhosamente, mas
Viva!

sábado, março 19

O que é a cidade?

É a cidade toda em peça teatral. Fazendo de conta que tudo é normal, que faz parte do roteiro, sem pensar no que andam fazendo. São os velhos gordos reclamando do garoto que pede esmola passando fome. “Esse aí não come, dá pra mãe comprar pinga”. Como se soubessem a vida só de olhar.
         Aquela dondoca que só sabe fazer fofoca, famosa, rica entulhada de diamante, que tem um amante, e trai o marido, que trai a mulher, e é traído até pela amante, que acaba por casar com o amante da esposa, depois chantageiam os dois, saem com milhões, sem ninguém suspeitar.
         É o quadro no lixo junto com um poema, “O Bicho”, em cima de um monte de Veja,  o lugar vazio deixado pelo falecido, que deixa enorme aquela mesa. O senhor de terno italiano, passeando com cachorro, que para pra cagar no poste e o dono tem que catar. Vestido de terno e gravata, sujando seu lenço de seda bordado com suas iniciais.
         O mendigo na rua, que é ignorado por todos, pensando ser invisível. Aquele cara fodido, caído com a perna cheia de pus as feridas enlarveadas, que escorrem pelas calçadas, e se debatem pelos vãos do piso.
         A dondoca passa com seu salto alto. Fazendo barulho, dando risada, falando sozinha no telefone, esmaga as larvas com seu sapato caro, e passa na frente da igreja, aonde tem uma missa, e toda aquela gente submissa.
         O padre dizendo amém. É aquela história de paz, céu e glória. Só precisa doar dinheiro pra paróquia. O povo cai nesse conto, mas mal consegue pagar as contas, e arruma mais um emprego pra pagar o dízimo, sobrevivendo de salário mínimo, e trabalhando o máximo, como o Bicho, ou Carlos Drummond. É uma pedra no meio do caminho do velho gordo, que levanta o vidro e finge que não vê.
         O povo todo sem fazer nada, e o padre fazendo a missa, e a TV que me ensina a viver, é o santo que resolve o problema dessa gente toda. Com reza e vela e vinho. Você aí sozinho.
         É São Paulo, é São Pedro, São Benedito, São Sebastião, é santo que não acaba mais. O povo pedindo, e os santos todos ocupados, e ninguém faz nada. É a política cheia de gente safada. O bêbado feliz, e você aí, o que me diz?
         Esse mundo está todo errado, e você aí parado. Com jeito de cansado, de que? Seu trabalho nem cansa! Pra amanhã acordar cansado, e ter pressa, pra que? Reclamando dos sinais, verdes, vermelhos, amarelos. Então, como faz?
         Me diz e aquele mendigo? Que nem roupa tem pra vestir, não vê comida faz tanto tempo que a barriga queima que nem o inferno. Logo, logo é inverno! Só tem uma bermuda, e a garoa começa fina, mas logo o frio alucina. Tem que fugir da polícia, e você reclama da preguiça.
         Como é então? Reclama de comer feijão. “Ah, de novo?” exclama cuspindo arroz pra todo lado. Pela janela um garoto olha, queria ter um pão pra comer, mas está fugindo de casa, porque não ganhou esmola do velho gordo, que subiu o vidro. O garoto fugiu pra não apanhar do pai. E você, como vai?
         A cidade inteira se estuprando, em uma Gomorra moderna, com boates, bares e cigarros, que são mortes em palitos. Você em conflito, dizendo estar triste, deprimido, toma um comprimido, deita na cama, com a pessoa que ama.
         Enquanto isso o mendigo fodido se encolhe no canto da calçada, no meio das larvas e do papelão que usa de cobertor. Não consegue dormir com fome, fome e dor, dor de fome e dor de dor. Queria comer, mas não pode. Queria morrer, mas não morre nunca. Imortalmente torturado pela vida dura. E você interpretando amargura, pra fazer charminho, pros outros do seu ninho.
         São os gays entupindo as ruas, enchendo a Paulista, pra poder dar o cu em paz. Coisa que o hetero não faz, nem dar o cu nem passeata, principalmente pra comer uma mulher, coisa que faz escondido, pra não dar na cara, pra ninguém ficar sabendo. Do outro lado da rua, os carecas decorando os rostos dos coloridos.  A polícia monta guarda, por algum tempo, armada. Todo mundo sem fazer nada.
         É a cidade toda. Isso é a cidade, que dorme tranqüila de noite, enquanto o povo se aniquila. O resort de luxo lhe da o conforto que precisa pra conseguir dormir, com SPA e massagista, sauna.
         Os gringos tomando metade da nossa fauna. A dondoca esmagando larvas de baixo do salto agulha. O gordo que nega o trocado pro garoto que a mãe espalma até sangrar.
  É um dia, só isso, e tem tanta coisa acontecendo, que você nem fica sabendo, mas também nem se interessa muito. Afinal, o que você tem a ver com o quadro no lixo, que era de crisântemos? E daí que a artista era a Marissa? Ou o monte de revista jogada em cima do quadro? Ou o velho com seu cachorro cagão?
“Isso não me interessa em nada. Não interessa pra ninguém!” você diria, pois é por isso que acontece todo dia. O garoto. O velho do carro. O gordo. O velho. O cachorro. A dondoca. O mendigo. A larva. O salto-alto. Você. Eu.
Todo mundo o mesmo barco. Fodido como o mendigo da perna cheia de pus. Talvez nem tanto, mas de qualquer forma estamos no mesmo lugar. Entulhando as filas dos santos, ou fazendo algo que possa realmente mudar.
O senado corrompido, e a cueca suja de bosta igual a do cachorro, cheia de dinheiro, que deu o jornal, com foto, quantidade e até comparação. Mas que nunca existiu. O garoto que some de repente na favela, ou o mendigo que um dia não acorda mais.
A vida e esses problemas banais, as chamadas de TV, que a emissora diz ser o melhor pra você, ou tudo a ver com você. O pobre pedindo e você fingindo que não vê. Mas tem dinheiro pra caso de ladrão.
O garoto que estende a mão, pedindo uma moeda, e você escarra na sua cara dizendo que não tem nada, mas veste um terno e está de carro.  Ainda reclama do pigarro, enquanto acende um cigarro, que por sinal diz que está caro.
O que está caro, meu caro, é viver com a sua cara, que esbanja na hora da farra, mas falta vergonha pra fazer sua parte. Na política ou na arte. Nem pra dividir um pouco. Focinho de porco. Mão de vaca. Fala que é socialista, mas não dá nem um trocado pro menino esfarrapado. Cara de viado.
Não faz nada pra mudar, só aperta passo pro mendigo bebaço não te alcançar. Nojento. Nem sabe mais o que é suar, só fede à loção. Já nem sabe mais o seu cheiro.
Não tem noção que o que não interessa é você, e não o mundo inteiro.

quarta-feira, março 16

Soneto da mudança

Antes eu era apenas um pequeno bebê
Fui desenvolvendo até vislumbrar que
Tudo acabava, vivia no dia a dia
Mudando pra uma coisa parecida

Enfim cheguei na minha juventude
Época da saúde, mansas crises
A criação das minhas diretrizes
Descoberta de minhas vicissitudes

Meia idade, meio do caminho
Ando me sentindo muito sozinho
E não sei para onde eu vou indo

Não sei como acabei virando velho
Só sei que um mundo de coisas passou
Então o fim dos tempos, por fim chegou
Estou morto
de cansaço e
Absorto

domingo, março 13

O velho Bode (reescrito)



O conhecimento tem seu preço, isso é inegável. Não existe maneira fácil de aprender, muito menos de uma hora pra outra. Aprender é um esforço contínuo de vida, são sacrifícios diários para o arsenal de informações pessoais. É viver em função da sua busca, mesmo sabendo que ela nunca acabe.
Se existisse uma maneira de aprender rapidamente e sem esforço, eu, o grande tolo Robert J. Raymond, me arrependeria amargamente,ou melhor, docemente. Doce ilusão.
Também não sabia passaria o resto de minha vida lamentando aquela escolha duvidosa que fiz. Hoje sei tudo que preciso, mas afinal quanto conhecimento é preciso para viver? Não sei.
Tudo isso aconteceu em um dia, foi muito rápido, rápido demais eu diria, quando vi, já estava tudo acabado, não havia modos de voltar atrás. Se eu ao menos tivesse o intelecto que tenho hoje naquele fatídico dia.
Mas caio naquele problema, será que aquele dia foi imprescindível para minha via crucis? Sem ele eu não estaria onde estou? Não seria quem sou? Hoje estou cheio de dúvidas, mas haviam me prometido conhecimento.
Não vejo um jeito melhor de lembrar aquele dia do que fazendo um relato sobre como foi que aconteceu, na tentativa de conseguir visualizar de fora e tentar reconstruir aquele dia.
Faz algum tempo, mas sei que posso me lembrar. Não tenho certeza do que eu sei ultimamente, se é que eu sei de coisa alguma, no fundo acredito que a linguagem trai tudo o que tento expressar.
Aquele dia tinha cara de domingo, mas devia ser segunda feira. Um dia útil, eu estava atrasado para meu emprego como secretário da empresa que trabalhava na época.
Como sempre eu estava cansado, mesmo quando tinha acabado de acordar. Acordei em meu quarto, vi o teto familiar, levantei da cama e fui tomar banho. Aprontei-me rapidamente, enfiei um pão na boca e saí apressadamente de casa. Estava atrasado.
Saí pelas ruas estreitas da cidade cinza e sem cores, com suas planejadas árvores as avenidas eram todas iguais, todas pareciam feitas de tédio. Andei pelas ruas tortas vendo as casas que já conhecia como a palma de minha mão, fazia aquele caminho todos os dias.
Não que algo me chamasse atenção, eu queria que algo me chamasse atenção e me tirasse daquele caminho tão tedioso. Eram as mesmas pessoas, as mesmas casas, os mesmos carros estacionados mudavam muito pouco a paisagem.
Era um dia normal, banal, cansativo. Andava com pressa, mas prestava atenção no mundo ao meu redor, por mais estúpido que seja. Mas esse simples fato mudou minha vida, ou pelo menos eu quero acreditar que isso me levou a ver algo que não veria sem ter visto aquela ruazinha, diria um beco, eu vi um bode.
Eu tinha certeza de que era um bode. O que fazia um bode no centro da cidade? Não sei. Mas estava lá e tinha um quê estranho nele, me perturbava acredito que era o cheiro, que era podre e me sufocava. Ele me olhava diretamente nos olhos e de repente saiu em disparada para uma direção qualquer.
 Não tive dúvida alguma, corri atrás dele, esqueci-me completamente do meu emprego, do meu atraso e até de meu patrão espumando cafeína e pronto para gritar comigo, me entreguei à procura daquele bizarro animal.
 Os becos ficavam cada vez mais estranhos, eu podia ouvir meus passos e os cascos do bode, segui seus rastros sonoros pelos tortuosos caminhos. Eram cheios de lixo e mendigos jogados pelos cantos, o animal era muito ágil e pulava por cima dos pedintes, eu precisava me esquivar e me soltar dos mendigos mais chatos que me agarravam a esperança de um trocado qualquer.
As vielas ficavam estreitos à medida que eu ia me perdendo naquele labirinto de ruas secundárias. Comecei a alcançá-lo e ele olhava para mim de vez em quando por cima do ombro. Perguntava-me que tipo de caprino estranho era aquele.
Estava quase alcançando-o quando ele ficou encurralado em uma rua sem saída, pensei que ali era o momento perfeito de analisar o pequeno caprino mais de perto. Quando me aproximei ele entrou em um buraco e sumiu.
Olhei em volta não havia ninguém, só estava eu ali, o animal havia sumido na escuridão daquele buraco. Eu podia parar ali mesmo, desistir daquela bobagem toda, sabia que meu chefe não me demitiria, eu era um bom empregado.
Mas já tinha ido tão longe que não podia desistir ali, meu chefe já iria gritar por muito tempo comigo, eu já iria dizer que estava doente mesmo. Mas com toda certeza não iria deixar aquele bode fugir assim, o túnel era escuro e muito pequeno.
Olhei para dentro, não via nada, era muito escuro mesmo.  Pensei um pouco, olhei em volta ofegante, era minha única chance de estar ali, eu não iria seguir o bode novamente, se é que ele apareceria outra vez.
Por isso eu entrei no buraco, não sabia se me arrependeria disso tanto quanto eu me arrependo, tive que deixar para trás minha maleta, me apertei pelo buraco estreito e acabei machucando os ombros e as costas.
Rastejei por um túnel claustrofobicamente pequeno e sujo, o cheiro nojento daquele bode estava em todo lugar, parecia vir de uma direção, então eu segui o cheiro do bode, por certo tempo, nunca saberei quanto tempo se passou ali, não haviam relógios e o meu havia se partido quando me apertava no começo.
Meus braços estavam cansados e o túnel ia alargando conforme eu me enfiava cada vez mais naquele lugar. Eventualmente pude engatinhar como um bebê por uma parte daquele canto escuro da terra.
Pareceu uma eternidade para mim não sei quanto tempo passei lá dentro até chegar em uma altura que pudesse andar levemente abaixado. Mesmo depois de tanto andar eu ainda não podia ver.
O buraco continuava aumentando em diâmetro conforme ia me afundando. Minhas roupas estavam rasgadas e eu estava exausto, simplesmente exausto e como que por sorte consegui chegar a uma câmara que eu podia andar ereto, com certa dificuldade, por não ver o chão e por não saber para onde ia.
Com alguma dificuldade fui ganhando terreno, posso jurar que se foram quilômetros lá dentro desde que eu entrei ali. Até que depois de perder boa parte de minhas roupas eu cheguei a uma parede. Tateei um pouco e acabei descobri que era um tipo de virada, como se o túnel virasse, fui seguido a parede com a mão, como um cego faria.
O buraco fazia varias curvas, eu virei varias vezes. Quantas vezes exatamente não tenho certeza, eu sei que virei muitas vezes, admito que realmente era muito confuso tudo aquilo.
Olhei em volta, escuridão total ainda, o que me deixava confuso, a essa altura eu estava de olhos fechados a muito tempo. Decidi começar a correr o mais rápido que podia, sem rumo mesmo, já não me preocupava mais em cair ou em me perder.
Não existia caminho de volta mesmo que eu quisesse, eu só  podia seguir em frente, afinal não sabia se podia voltar, eu queria chegar ao fim daquela busca infernal.
Corri, corri sem rumo até meus pulmões cansarem e parei para respirar, me curvei um pouco para respirar, o túnel era úmido e o cheiro de enxofre ficava mais forte a cada passo. Estava ficando difícil recuperar o fôlego ali.
Segui em frente, por mais algum tempo, não demorou muito dessa vez, até que finalmente visse uma luz ao longe, um clarão muito forte. Tampei a luz com a mão porque aquela claridade toda me doía os olhos, depois de tanto tempo em meio às trevas.
Olhei para baixo e estava em um lugar completamente diferente, não sei como, mas em um piscar de olhos estava em um corredor de mármore.
Era um corredor muito sofisticado, bem iluminado por candelabros, o cheiro havia sumido e as paredes eram feitas de mármore também, repletas de quadros de pessoas que desconheço.
Olhei-me e estava vestido formalmente, não sei como me troquei, nem me lembro de ter um terno igual aquele, estava elegante com sapatos combinando e gravata.
No final do corredor de mármore tinha uma porta grande de madeira. Fui até ela com pressa, eu não podia perder tempo, me apressei em entrar na sala que estava atrás dessa porta.
Uma grande sala com as paredes de madeira. Havia muitos arquivos naquela sala, parecia algum tipo de escritório, mas era um pouco escuro. O cheiro de enxofre daquele animal estava em toda parte.       
O chão era feito de longas tábuas de madeira e as tábuas que ficavam entre a porta e a mesa eram vermelhas, como um tapete vermelho de alguma madeira que não consegui reconhecer.
O bode estava sentado atrás de uma mesa, em uma luxuosa e enorme cadeira. A única luz que eu via era a da janela detrás do bode e isso dava a ele um aspecto sombrio, seus chifres faziam sombra até meus pés, seus cascos batiam apressados no chão fazendo um estrondo rítmico, no meio da sala.  Havia uma mesa em sua frente, com duas cadeiras vazias.
O caprino estava diferente, se parecia com uma enorme pessoa metade bestial. O tronco humanóide vestia um terno listrado, sua outra parte eram pernas de bode compridas. Sentei-me na cadeira da esquerda e ele me fitava calado, mas com um ar nervoso ele abriu um sorriso sinistro e disse com sua voz grossa:
         - Quem é você?
- Sou Robert J. Raymond. Quem é você?
- Tenho muitos nomes, mas pode me chamar de guardião. O que você quer comigo?
- O que você guarda?
Ele riu em um tom estranho, colocou a mão peluda debaixo da mesa e pegou um charuto, riscou um palito de fósforo e logo a sala toda estava fedendo tabaco. Perguntou-me:
- O que você quer tanto comigo que me persegue? - com sua voz estranha e assoprou fumaça do charuto na minha cara, olhando fundo nos meus olhos, cortando minha alma com aqueles olhos redondos.
- O que você guarda?- repeti nervoso
Ele bateu o charuto encima de um adorno na mesa escrito "Conhecimento", calado. Perguntei novamente, ele riu e disse ironicamente:
- Se você não entendeu das primeiras vezes, é porque é mais estúpido do que eu pensava- riu novamente de mim.
Cansei-me daquilo e olhei bem para seus olhos e disse:
- Não preciso de você seu bode velho! Se não tem nada pra me dizer e isso tudo foi uma imensa perda de tempo.
 Levantei e fui-me rumo à porta, o guardião apagou o charuto na mesa com força e se levantou abruptamente, no mesmo momento em que toquei a maçaneta, ele me disse firme:
- Nesse caso sente que precisamos conversar.
Voltei e sentei-me novamente na cadeira, ele me olhou de alto a baixo e rosnou um resto de fumaça dos seus pulmões e disse:
         - A arrogância não lhe ajudará em nada.
- Estou pronto para as conseqüências de meus atos. Você não pode me ajudar calado.
 Ele abriu um sorriso bem largo, pegou um fruto de dentro de uma gaveta, colocou encima da mesa, olhou para mim fixamente e disse em um tom mais ameno, mas ainda firme:
-Se eu pudesse lhe ensinar tudo que precisa saber. Você iria realmente querer aprender ou iria ser covarde?
Empurrou o fruto para minha direção, eu olhei para aquilo, mas não conseguia ver direito o que era. A sombra do enorme caprino cobria toda a mesa. Ele completou dizendo:
- Se você realmente quer aquilo que eu guardo coma essa fruta.
Peguei-a e apalpei gentilmente, engoli seco, não sabia aonde aquilo me levaria. Quando dei a primeira dentada na fruta, tinha gosto de maçã, ele começou a gargalhar.
Sua risada começou a entrar em mim e a me deixar tonto. Fechei os olhos e tapei os ouvidos, aquilo tudo me doía e fazia-me ficar sem força para respirar. Sua risada me apertava. Ela entrava em meus ouvidos como se fossem agulhas e a dor logo tomou lugar do medo.
O som se afastava lentamente, foi se tornando irreconhecível, até que parecia uma sirene. Acordei assustado, com a respiração ofegante. Abri os olhos. Vi o teto familiar. Era meu quarto. Olhei para o lado e para o relógio. Estava atrasado para o trabalho.
Depois daquele dia não conseguia mais parar de pensar que eu não sabia de nada, existiam muitos assuntos dos quais eu sabia um pouco, mas não iria nunca saber tudo sobre eles, perdia noites de sono pensando nos corredores escuros que não tenho certeza se existem ou não.
Meu mundo ficou infinito de repente, eu não conseguia me sentir mais daquele modo que eu me sentia antes, aliás nem lembro como sentia. Antes era como se eu não soubesse. Hoje eu sei, mas quem disse que isso me ajudou?
Arrependo-me daquele dia por não ter sido mais firme naquele momento que olhava o buraco, eu podia ter me negado a entrar em busca daquele conhecimento todo. Se eu soubesse o que me esperava não teria vivido uma vida tão difícil.
Naquele momento eu aprendi a maior verdade de todas. Aquela dentada me mostrou realmente tudo que eu precisava aprender, maldito demônio caprino. Se estivesse menos cansado, já cansei de tantas possibilidades, fiquei preso naquele instante pro resto de minha vida.
Hoje eu sei que cometi muitos erros, mas nenhum tão grande quanto comer aquela fruta e o pior de tudo aprendi naquele momento que não poderia fazer nada a respeito daquilo tudo.
Morri naquela sala, estava de terno e tudo, era até de madeira, devia ser meu caixão. Não, eu me lembro de acordar no dia seguinte, eu sei que lembro. Não tenho certeza, mas eu sei que acordei, quero acreditar nisso.
Já faz muitos anos, mas quando fecho os olhos ainda penso estar naquele labirinto escuro que não sei se era real. Só sei que sei alguma coisa, mas que falta muita coisa pra aprender.
Também sei que nunca vou saber tudo que existe, aprendi com o tempo que até mesmo um bebê sabe tudo que precisa pra viver, ou melhor, que não é preciso saber nada pra viver.
Sei que Robert Raymond, o tolo mais tolo de todos, fez uma troca que nem a criança mais ingênua de todas faria.
Hoje eu sei. Saber, mata.

sexta-feira, março 11

É da solidão que vem
a força necessária
pra ser maior

Levarei a vida
Só, só me arrependo
de não ter sido mais
solitário

O cidadão

      em
     mim
      e u
  esqueço
  que faço
  parte da
   cida de
    pa ra
    mi m
    so  u,
  ape nas.

quarta-feira, março 9

Sinto meu coração batendo forte
Quase consigo ouvir as pulsações
Espalhando o óleo da vida pelo meu corpo
Fazendo um ritmo único
Queria eu entender uma coisa
Só isso eu queria saber
Por que ele vai cansar
E logo logo parar de bater?

sábado, março 5

Vejo o mundo
com olhos de cego
Vazio profundo
eu não nego.

quinta-feira, março 3

Movimento
Move o momento
Muda o sentimento

Momento a momento

quarta-feira, março 2

Mais um poema escrito,
Um amor não-dito.
    É esquisito.
Este planeta que habito.
Maldito.
Calado, grito
Espremendo inspiração
Por algumas linhas
        em vão    
Palavras parecem sozinhas
Ao fluírem de minha mão