sábado, março 19

O que é a cidade?

É a cidade toda em peça teatral. Fazendo de conta que tudo é normal, que faz parte do roteiro, sem pensar no que andam fazendo. São os velhos gordos reclamando do garoto que pede esmola passando fome. “Esse aí não come, dá pra mãe comprar pinga”. Como se soubessem a vida só de olhar.
         Aquela dondoca que só sabe fazer fofoca, famosa, rica entulhada de diamante, que tem um amante, e trai o marido, que trai a mulher, e é traído até pela amante, que acaba por casar com o amante da esposa, depois chantageiam os dois, saem com milhões, sem ninguém suspeitar.
         É o quadro no lixo junto com um poema, “O Bicho”, em cima de um monte de Veja,  o lugar vazio deixado pelo falecido, que deixa enorme aquela mesa. O senhor de terno italiano, passeando com cachorro, que para pra cagar no poste e o dono tem que catar. Vestido de terno e gravata, sujando seu lenço de seda bordado com suas iniciais.
         O mendigo na rua, que é ignorado por todos, pensando ser invisível. Aquele cara fodido, caído com a perna cheia de pus as feridas enlarveadas, que escorrem pelas calçadas, e se debatem pelos vãos do piso.
         A dondoca passa com seu salto alto. Fazendo barulho, dando risada, falando sozinha no telefone, esmaga as larvas com seu sapato caro, e passa na frente da igreja, aonde tem uma missa, e toda aquela gente submissa.
         O padre dizendo amém. É aquela história de paz, céu e glória. Só precisa doar dinheiro pra paróquia. O povo cai nesse conto, mas mal consegue pagar as contas, e arruma mais um emprego pra pagar o dízimo, sobrevivendo de salário mínimo, e trabalhando o máximo, como o Bicho, ou Carlos Drummond. É uma pedra no meio do caminho do velho gordo, que levanta o vidro e finge que não vê.
         O povo todo sem fazer nada, e o padre fazendo a missa, e a TV que me ensina a viver, é o santo que resolve o problema dessa gente toda. Com reza e vela e vinho. Você aí sozinho.
         É São Paulo, é São Pedro, São Benedito, São Sebastião, é santo que não acaba mais. O povo pedindo, e os santos todos ocupados, e ninguém faz nada. É a política cheia de gente safada. O bêbado feliz, e você aí, o que me diz?
         Esse mundo está todo errado, e você aí parado. Com jeito de cansado, de que? Seu trabalho nem cansa! Pra amanhã acordar cansado, e ter pressa, pra que? Reclamando dos sinais, verdes, vermelhos, amarelos. Então, como faz?
         Me diz e aquele mendigo? Que nem roupa tem pra vestir, não vê comida faz tanto tempo que a barriga queima que nem o inferno. Logo, logo é inverno! Só tem uma bermuda, e a garoa começa fina, mas logo o frio alucina. Tem que fugir da polícia, e você reclama da preguiça.
         Como é então? Reclama de comer feijão. “Ah, de novo?” exclama cuspindo arroz pra todo lado. Pela janela um garoto olha, queria ter um pão pra comer, mas está fugindo de casa, porque não ganhou esmola do velho gordo, que subiu o vidro. O garoto fugiu pra não apanhar do pai. E você, como vai?
         A cidade inteira se estuprando, em uma Gomorra moderna, com boates, bares e cigarros, que são mortes em palitos. Você em conflito, dizendo estar triste, deprimido, toma um comprimido, deita na cama, com a pessoa que ama.
         Enquanto isso o mendigo fodido se encolhe no canto da calçada, no meio das larvas e do papelão que usa de cobertor. Não consegue dormir com fome, fome e dor, dor de fome e dor de dor. Queria comer, mas não pode. Queria morrer, mas não morre nunca. Imortalmente torturado pela vida dura. E você interpretando amargura, pra fazer charminho, pros outros do seu ninho.
         São os gays entupindo as ruas, enchendo a Paulista, pra poder dar o cu em paz. Coisa que o hetero não faz, nem dar o cu nem passeata, principalmente pra comer uma mulher, coisa que faz escondido, pra não dar na cara, pra ninguém ficar sabendo. Do outro lado da rua, os carecas decorando os rostos dos coloridos.  A polícia monta guarda, por algum tempo, armada. Todo mundo sem fazer nada.
         É a cidade toda. Isso é a cidade, que dorme tranqüila de noite, enquanto o povo se aniquila. O resort de luxo lhe da o conforto que precisa pra conseguir dormir, com SPA e massagista, sauna.
         Os gringos tomando metade da nossa fauna. A dondoca esmagando larvas de baixo do salto agulha. O gordo que nega o trocado pro garoto que a mãe espalma até sangrar.
  É um dia, só isso, e tem tanta coisa acontecendo, que você nem fica sabendo, mas também nem se interessa muito. Afinal, o que você tem a ver com o quadro no lixo, que era de crisântemos? E daí que a artista era a Marissa? Ou o monte de revista jogada em cima do quadro? Ou o velho com seu cachorro cagão?
“Isso não me interessa em nada. Não interessa pra ninguém!” você diria, pois é por isso que acontece todo dia. O garoto. O velho do carro. O gordo. O velho. O cachorro. A dondoca. O mendigo. A larva. O salto-alto. Você. Eu.
Todo mundo o mesmo barco. Fodido como o mendigo da perna cheia de pus. Talvez nem tanto, mas de qualquer forma estamos no mesmo lugar. Entulhando as filas dos santos, ou fazendo algo que possa realmente mudar.
O senado corrompido, e a cueca suja de bosta igual a do cachorro, cheia de dinheiro, que deu o jornal, com foto, quantidade e até comparação. Mas que nunca existiu. O garoto que some de repente na favela, ou o mendigo que um dia não acorda mais.
A vida e esses problemas banais, as chamadas de TV, que a emissora diz ser o melhor pra você, ou tudo a ver com você. O pobre pedindo e você fingindo que não vê. Mas tem dinheiro pra caso de ladrão.
O garoto que estende a mão, pedindo uma moeda, e você escarra na sua cara dizendo que não tem nada, mas veste um terno e está de carro.  Ainda reclama do pigarro, enquanto acende um cigarro, que por sinal diz que está caro.
O que está caro, meu caro, é viver com a sua cara, que esbanja na hora da farra, mas falta vergonha pra fazer sua parte. Na política ou na arte. Nem pra dividir um pouco. Focinho de porco. Mão de vaca. Fala que é socialista, mas não dá nem um trocado pro menino esfarrapado. Cara de viado.
Não faz nada pra mudar, só aperta passo pro mendigo bebaço não te alcançar. Nojento. Nem sabe mais o que é suar, só fede à loção. Já nem sabe mais o seu cheiro.
Não tem noção que o que não interessa é você, e não o mundo inteiro.

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