sexta-feira, abril 29

O espantalho

Sozinho no campo de trigo,
meu único amigo
era um corvo,
que dizia "Que estorvo!"

Minhas roupas surradas e
fitando a criatura alada
Ouço e absorvo
seu grasnado:"Estorvo!"

O meu companheiro
rodeava o dia inteiro
com seu sorriso torto
"Que estorvo! Estorvo!"

Eu não tinha destino,
fadado ao exílio
no meio do campo, absorto.
"Estorvo!"

Meus dias sem sentido
resumem-se a espantar meu amigo, e
ao longe seus grasnados tiram meu conforto
"Que estorvo!Estorvo!"

As vezes penso que ele me quer morto
quando olho o corvo,
grasnando meu castigo:
"Que grande amigo!".



E.A.P.

quarta-feira, abril 27

O estrangeiro

Apenas aqui eu vejo sinto e apalpo
os acontecimentos desta cidade
um velho caído no asfalto
espumando epiléptico.
Vejo um taxista quase atropelando uma criança,
em meus passos céticos,
lembro da infantil segurança
e sua inocente ignorância

Vejo mendigos com as mãos estendidas
e policiais com as mãos nos bolsos.
Vejo crianças perdidas
e pessoas ignorando a todos.
Vejo carros apressados,
ouço buzinas incessantes
de motociclistas desvairados
e os passos de apressados caminhantes

É como se eu visse o reflexo
de uma pessoa em todo esse conjunto
que leva uma vida sem nexo
apenas para o vislumbro
de um dia melhor
ou de um dia qualquer
em que se possa supor
que valeu a pena andar a pé

Para ver um dia
em que se veria um motivo
para esta vida vazia
sem pensar no prejuízo.
Como se as pessoas vivessem
iguais aos automóveis para gasolina
mas o que as abastecem
são esperanças de um dia.

terça-feira, abril 26

O frio

Vazio, vazio, vazio
e esse frio interno
coberto de pele.
Sentir-se vazio
e o frio do inferno,
essa lacuna gelada fere.

Impossível escapar deste
vácuo frio e invasor
que deixa torto,
desta peste
de gélida dor
que se espalha pelo corpo.

Vazio, torto e gelado,
sem sentir nada além do frio,
esse vazio que mata,
além de tudo isolado,
buscando o equilíbrio
entre o frio e o nada.
Esse papo de ser
aquilo que sou
vai me levar só
não sei onde vou

segunda-feira, abril 25

Vivamos apenas o presente
Vamos sempre em frente
que o Sol está apenas nascente
Isolamento de contato
O silêncio inato
Estou só, calado e grato

domingo, abril 24

Paz enfim
fui-me assim
enfim o fim

sábado, abril 23

Qualquer dia desses
eu vou parar de dançar
e viver

segunda-feira, abril 18

Aonde está aquela resposta
que eu procurei pelos becos?
Aonde está aquele velho eu
que hoje é apenas eco?
Aonde?

Aonde estão meus amigos
que me disseram ser eternos?
Aonde está a saída daqui
que parece ser o inferno?
Aonde?!

Aonde está aquele lugar
que costuma ser meu canto?
Aonde está aquela vaidade
que curava o meu pranto?
Aonde?

Aonde está minha boca
que já não diz nada?
Aonde está a minha força
que se perdeu pela estrada?
Aonde?!

Aonde está aquela inocência
que hoje está perversa?
Aonde está tudo
que me fugiu tão depressa?
Aonde?!

Aonde está meu oasis
que floresce neste deserto?
Aonde está o meu sono
que me mantem desperto?
Aonde!?

Aonde está o meu corpo
que não este que visto agora?
Aonde está o meu rosto
que me cobrira outrora?
Aonde?


Aonde estou eu
que estou confuso?
Aonde está você
que me deixou obtuso?
Aonde?



Aonde está minha calma
que fugiu e me deixou assim?

Aonde está minha cabeça
que se perdeu enfim?
Aonde...?

Aonde está a felicidade
que fugiu rancorosa?
Aonde está a morte
que é sadicamente piedosa?
...aonde...

domingo, abril 17

Conta corrente

O preço do Perdão é o silêncio
O preço da Beleza é a vaidade
O preço da Razão é o hospício
O preço da Sabedoria é a idade

O preço da Certeza é a dúvida
O preço do Amor é o desafeto
O preço do Sonho é a medida
O preço da Inovação é o obsoleto

O preço do Conhecimento é a tolice
O preço da Pureza é a ingenuidade
O preço da Vida é a velhice
O preço da Prece é a imobilidade

O preço da Humanidade é a consciência
O preço do Sentimento é a negação
O preço da Pressa é a desistência
O preço da Vontade é a determinação

Maktub

Aquilo que está escrito
é a necessidade do escritor
de expressar o não-dito
em se tratando de dor

Ensimesmado

Sou apenas palavra
E tenho direito
de ser palavra-sujeito
Sem dizer nada.

segunda-feira, abril 11

Emoção de Nanquim

A tinta da poesia
No dia a dia
Perde sua alegria

A dor e a tinta
Como que pintam
De Nanquim

Negro como graxa
Das máquinas
Ou o fundo das pálpebras

Nada é tudo
Vazio profundo
Agudo e mudo

O escapismo
Do abismo
No ostracismo

quarta-feira, abril 6


Corpo da mente
Mente no corpo
Seria o corpo
Boneco da mente

Somente a mente
Dentro do corpo
Somente o corpo
Colado na mente

Queria a mente
Fora do corpo
Queria o corpo
Fora da mente

Mente somente
Mexe o corpo
Queria mente
Somente.