segunda-feira, maio 23

Nada é tão grave,
que não possa ser agudo.

sexta-feira, maio 13

Espelho

Já faz tanto tempo que
minha sanidade se perdeu.

Hoje sou um espelho.
Espelho, espelho meu,
existe alguem que reflita como eu?

segunda-feira, maio 9

Sorria!

o passado marcado à
ferro quente em minha
pele cicatrizada, mas contente
se pudesse não faria diferente.

De qualquer forma não poderia.
Esqueça, encene e sorria.

Aquário

Nada pela janela,
nada no quarto,
ou na cozinha.

Ê! vidinha de peixe.

sábado, maio 7

Amaveis Netos

É apenas com os olhos abertos
que é possível ver a luz
Não que eu quisesse,
mas eu não consigo decidir

Entre os vermes e os netos,
ver nascer dois olhos azuis.
Não que eu pudesse
simplesmente exprimir.

Toda uma questão e,
quebrar estes tabus,
linhas de sal e peste
que mal estão a existir.

Não que seja possível ver os netos
com os seus olhos azuis.
Sem ao menos que lembrasse
de minha filha a parir.

Meus netos são Robertos
De Bento e Cruz,
que caso se lembrassem,
nós iriamos nos reunir.

Mas por algum fato
que me escapa à luz
da razão, eles se esquecem
e não vem aqui.

Os vermes são meus netos!
Que sugam de meu sangue o pus,
e se eles não me agradecem,
é o seu orgulho a luzir.

Ainda não sabem, os espertos,
que neste mundo eu lhes pus
O quanto me devem.
Quero ver depois que eu partir.

Queria ver as reações dos vermes funéreos,
vestindo os meus olhos azuis,
se então eu quisesse
levantar e ressurgir.

Só para ver como estariam os restos
daquele mundo que eu os impus,
e que ingratamente eles
brincaram de eu não existir.

Não que sejam vermes os meus netos,
não é justo comparar isto que eu expus.
Não merecem tamanho estresse,
os vermes não estão a me ferir.

segunda-feira, maio 2

Exploração

Era um daqueles noticiários,
noticiário sanguinário,
sanguinário porque festeja ao
explorar a desgraça alheia

de Fukushima às crianças,
criança vitima de matança,
matança alheia ao leitor,
leitor na segurança do conforto.

Conforto tirado do povo,
povo controlado,
controlado pelo pavor,
pavor de ser manchete.

Manchete com mil mortos a mais
mas, as alterações gerais, nem se nota
notariam se estivessem a preocupar-se,
e se preocupam apenas depois de ler.

Ler o próprio noticiário
noticiário do muito sanguinário
que explora aquele coitado,
coitado do observador.

domingo, maio 1

O Canibal

Foram absurdos o número de corpos que eu devorei.
Indo de Lear ao Henrique V,
todos aqueles mortos que me deliciei.

Comi as angústias de Clarice
e as retinas de Drummond.
Ouvi o que Dostoiévski disse e
bebi o sangue de Byron.

Devorei os braços de Edgar,
chupei o tutano de Marcelino.
Meireles eu estive a desenterrar,
para me saciar nos seus dedos finos.

Até Ariano Suassuna
que não queria devorar,
mas forte é minha sina
e eu não pude suportar.

Viajei o mundo comendo os miolos
de mortos que não os usavam.
Lambi seus crânios e comi seus olhos,
que a  muito tempo se fecharam.

A terra que cavei para tirar-lhes dos túmulos
foi tamanha que fiz Cidades e Serras,
enfim, cavei meu próprio mundo.
Afim de achar o que não encontrei na Paz e na Guerra.

Sem nunca sofrer do Processo,
Como um Jogador consigo,
sem ser sentenciado a Cem anos de solidão,
fugir do Crime e Castigo.

Foram tantos Carlos, Henrys e Inácios,
que me serviram de alimento,
sustento para meu hábito devasso
de comer o alheio pensamento.

Os nomes que me fizeram,
as partes de seus corpos que me compõem,
Que acabo confundindo o que eles eram
com isto que se expõe.

A Metamorfose de minha imagem
já foi Além do Bem e do Mal,
e não tenho coragem
de me dizer normal.

Sou louco como Nietzsche,
e vou dizendo que sou canibal,
antes que você se irrite
e me acuse de ser Miserável

Fugindo do Admirável Mundo Novo,
para buscar a terra prometida, e
estou convencido que O Corvo
me trará um ramo de oliva.

Nunca chegarei nem perto,
de matar a minha fome por mentes,
de comer a todos que quero, pois
quanto mais eu como, mais me apertam os dentes.