domingo, maio 1

O Canibal

Foram absurdos o número de corpos que eu devorei.
Indo de Lear ao Henrique V,
todos aqueles mortos que me deliciei.

Comi as angústias de Clarice
e as retinas de Drummond.
Ouvi o que Dostoiévski disse e
bebi o sangue de Byron.

Devorei os braços de Edgar,
chupei o tutano de Marcelino.
Meireles eu estive a desenterrar,
para me saciar nos seus dedos finos.

Até Ariano Suassuna
que não queria devorar,
mas forte é minha sina
e eu não pude suportar.

Viajei o mundo comendo os miolos
de mortos que não os usavam.
Lambi seus crânios e comi seus olhos,
que a  muito tempo se fecharam.

A terra que cavei para tirar-lhes dos túmulos
foi tamanha que fiz Cidades e Serras,
enfim, cavei meu próprio mundo.
Afim de achar o que não encontrei na Paz e na Guerra.

Sem nunca sofrer do Processo,
Como um Jogador consigo,
sem ser sentenciado a Cem anos de solidão,
fugir do Crime e Castigo.

Foram tantos Carlos, Henrys e Inácios,
que me serviram de alimento,
sustento para meu hábito devasso
de comer o alheio pensamento.

Os nomes que me fizeram,
as partes de seus corpos que me compõem,
Que acabo confundindo o que eles eram
com isto que se expõe.

A Metamorfose de minha imagem
já foi Além do Bem e do Mal,
e não tenho coragem
de me dizer normal.

Sou louco como Nietzsche,
e vou dizendo que sou canibal,
antes que você se irrite
e me acuse de ser Miserável

Fugindo do Admirável Mundo Novo,
para buscar a terra prometida, e
estou convencido que O Corvo
me trará um ramo de oliva.

Nunca chegarei nem perto,
de matar a minha fome por mentes,
de comer a todos que quero, pois
quanto mais eu como, mais me apertam os dentes.

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