domingo, junho 19

Manchete

Abro o jornal da manhã,
o sangue dos mortos de ontem
esguicha no meu rosto.
Atônito, as páginas grudam em meus dedos.
Não posso larga-lo.

Os olhos das crianças mortas,
de ontem, fitam-me profundamente.
Parecem ver minha alma,
choram silenciosas em meus ouvidos.

As crianças vivas, e pobres,
estendem as mãos para que as ajude.
Agarram as minhas roupas e me puxam
com toda a força de seus finos braços.

Querem comida.
As crianças querem comida!
Agora é tarde, são muitas e eu sou puxado
para dentro do jornal, da miséria.

A última sensação
são seus dentes,
devorando os restos,
restos de quem?

5 comentários:

  1. Os restos de sentimentos bons que habitam em nós...

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  2. E se não somos quem evita, somos aqueles que ajudam a criar.

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  3. Concordo com o poeta da colina!

    Em algum momento tenho que aceitar ser "mediocre", diante minha impotência diante desses fatos. Não se pode ser perfeito, mas faço o melhor que posso em tudo.

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  4. Não diria que é uma aceitação da mediocridade, mas uma lutar por uma mísera importância, o desespero é que constroe motivos para a luta. Seja pela sobrevivência ou pelo renome, em busca de comida para a primeira, ou espalhando cartões para a segunda.

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