sábado, junho 18

A Terra

Ame o chão, assim como ele o ama.
beije seu pedaço de terra
com todo o carinho que tens.

Olhe para baixo, lá está ele.
Parado, imenso, suportando-te.
Carinhoso, paciente, cheio de amor e espaço.

Fuja, corra, não tem para onde ir?

Não precisa de rumo, apenas vá.
Vá para longe!
Ele lhe carregará para lá.
Longe de que?

Veja que não importa,
que em toda parte o chão lhe espera.
Corra, mais rápido, pise duro.
Esmague seu destino com a sola do sapato,
Pule. Liberte-se do chão por algum tempo,
depois caia com mais força
esmurre o paciente chão com seu peso.

O seu destino é o chão.
Você sabe melhor do que ninguém,
primeiro está sobre ele,
depois sob ele,
a vingança terrestre.

Será esmagado pela terra 
como esmagou-a em vida.
Eternamente prisioneiro 
de um cárcere de madeira.
Sem chance de liberdade.

O chão que nunca esteve tão perto, 
tão dentro, tão sob, tão sobre.
Tão somente o chão
coube para os seus pés,
que nunca saíram dele.

Aproveite, vamos, agora é cedo ainda.
O chão ainda suporta sua vida.
Levante, vá embora, pare tudo que está fazendo,
saia desta sala, vá para longe.

Beba, celebre, fume, grite.
Faça tudo que sentir vontade.

Depois volte ao estado inevitável de silêncio,
e ouça o que o chão tem pra lhe dizer.
Ouça-o chorar seu desamor,
lamentar os pisões, e a sola dura.
Reclamar de sua vida dura,
de sua obrigação de
Aguentar o peso de tudo.

Ame o chão, como a si mesmo.
Ame-o que lhe é obrigação,
aceite, o chão é seu verdadeiro amor.
Deu o apoio para que fizesse tudo.
Deu seu amor incondicional.
Sempre, sempre, sempre
o chão estará ali para você.

Mesmo quando sumir seus melhores amigos,
mesmo quando você não quiser mais existir,
quando todos estiverem mortos,
e você for o único ser pensante da terra,
ou o sol não quiser mais voltar,
o chão estará ali, estático, firme.

Esperando que você acorde,
para lhe segurar os sapatos.
Esperando que você caia
de um salto de fé.
Esperando, pacientemente,
com a calma de um planeta,
um velho de bilhões de anos.
Esperando o dia que lhe terá nos braços.
em um abraço apertado de amante,
Sufocante, claustrofóbico.

Aquele dia em que você não se manterá de pé
e precisará deitar-se, depois fechar os olhos
lentamente, até que o pensamento se desfaça,
e o chão te engula lentamente,
palmo a palmo, sete vezes.
e você sumirá, pra nunca mais
ser visto ou ouvido.
Será parte do chão, e finalmente
ele terá seu amor junto de si.
Para sempre.

4 comentários:

  1. Confesso que nunca antes pensei em escrever sobre a terra. Tudo que voa pelos ares e o próprio céu sempre me serviram de inspiração. O teu poema me trouxe o outro lado da escrita, algo meio tétrico mas sem deixar de ser bonito de ler e sentir. Sempre pedi que não quero que meu fim seja no chão e sim, que joguem minhas cinzas pelo ar, ou no mar. Aí eu leio aqui uma ode à terra, ao chão, e fico imaginando que tudo o que sempre desejei foi em vão... Porque quem é enterrado no chão, não está mais ali, então tanto faz, porque a alma continua em construção. Que teu domingo seja doce feito fruta madura. Até mais ver!

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  2. Mas como nas fábulas, não é o caminho que importa?

    Ou se preferir, como se chega e não onde se chega?

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  3. Este comentário foi removido pelo autor.

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  4. O lugar, é tão importante quanto o caminho, macaco. Que te vale o caminho, se não sabe aonde chegar?
    Poderia andar por mil vales em labirinto. Sem um destino na cabeça, é tudo em vão.

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