domingo, julho 24

Santiago de Sant'anna X Cain

Tomo sua mão
chamo-lhe para versar
esta valsa escrita.                      Santiago
Juntos versaremos
essa sensação valsada.

Roubo sua atenção,
furto do tempo alguns instantes,
para fixá-los em versos encapuzados.    Cain
Escrever é um crime,
um assalto à mão armada.

sábado, julho 23

Clique

Sentado em uma cadeira,
vejo o mundo todo com um clique.
Qualquer assunto do conhecimento,
clique.
Quase todas as ruas, avenidas ou cidades,
clique.
Com direito a visão em 360 graus.
clique.
Consigo ouvir quase todas as músicas,
clique.
Não é preciso mais do que isso
para acabar com uma vida,
clique.
Ouvir o último lançamento japonês,
clique.
Tudo com apenas um dedo.
Mesmo com tanto poder,
sob minhas frias mãos metálicas,
clique.
Não sei o que farei em seguida.

terça-feira, julho 19

Memórias cinzas

Um cigarro,
uma ideia,
tão pouco
quase nada.

Um trago,
eu trago
o mundo todo,
tão pouco.

Um cinzeiro
de memórias
que desaparecem
ao soprar do vento.

Mais um cigarro,
mais uma ideia,
um pouco mais
de tão pouco.

Queria um copo,
uma dose,
uma garrafa.
De que?
De água?
Pra que?
Sem motivo,
vou acender mais um cigarro.

Mais um pouco
de nada,
tudo que me faz falta,
quase nada.
Um cigarro,
uma lembrança,
um dia,
uma vida toda,
uma vida à toa.

Tão pouco,
um cigarro,
tudo que há
para ser dito
no silêncio
eloquente
da noite muda.

Muda a noite,
eu não mudo,
o tempo passando,
e meu cigarro queimando,
queimando memórias
jogadas junto às cinzas
no meu cinzeiro.

O cinzeiro está cheio
e lembranças transbordam.
Não podendo ser jogadas fora
somente volta à minha memória.

domingo, julho 17

Fragmentos de alguém

Eu fui um dia importante.
Radiante, cheio de sorrisos,
tanto meus quanto dos outros.
Era aplaudidamente ingênuo,
de um dito talento brilhante.

Eu fui um dia, mas como
os dias são seguidos de noites.
Não existe nada mais claro
que o Eu-Dia vire
eu-noite.

Hoje, sou noite esquecida
entre tantas outras,
sou iluminado apenas por brasas de cigarro.
Pequenas pontas brilhantes perdidas
sob tanta escuridão sóbria.

Esclareço que como noite
não sou mais nem menos do que antes.
Não tenho a presunção de ser
todo aquele resplendor que não sou.
Não sou bom, nem ruim, sou noite.

sábado, julho 16

Tome um agrado homem-cão.
Pare de latir.
Agora sorria,
e abane o rabo.
Deite, finge de morto.
Bom garoto.

quinta-feira, julho 14

Bastilha

Às armas, irmãos!
Não aceitemos injustiças!
Não existe nada pior do que ser subjugado.
Principalmente quando se tratam de crápulas.

Às armas, irmãos!
Vamos todos rumo à morte
e ao Sucesso, Futuro e à Igualdade.
Compartilhemos Ideologias, e não desgraças.

Às armas, irmãos!
Que ainda é tempo.
Que somos muitos.
Que somos imbatíveis!

Às armas, irmãos!
Não existe nada nesse mundo
que possa parar o povo todo
buscando um objetivo.

Às armas!! Às armas!

quarta-feira, julho 13

"Não vai mais dar certo"

"Não vai mais dar certo."
Conhaque.
Aquelas palavras rodavam na minha cabeça.
O mundo girava um pouco.
Não. Eram as minhas palavras.
Em que sentido eu usei elas?
Acho que era pra dizer que era um fim.
Conhaque.
O que será que eu quis dizer...
Hummm...
Fósforo, cigarro, fumaça.
Devia ser o fim de uma fase na minha vida...
Diabos, não consigo lembrar.
Conhaque, água.
Meu cérebro faz milhares de sinapses incontroláveis.
Fumaça, cinzeiro.
Já sei, era um "pé na bunda".
Não. Não era isso.
Deve ter a ver com algum pseudo-poema.
Humm...
Cigarro, fumaça.
Não vai mais dar certo, eu não vou lembrar...
Ahhh! Era isso!
Brinde à lembrança.
Garrafa, copo, conhaque.
O que será que não vai dar certo?

Poetas por todos os lados

Como existem poetas hoje em dia!
Poetas em todos os cantos
e são tantos que é impossível saber o nome de todos.
Eles vem de todos os lugares,
de casas boas, ruins, dentro de ônibus,
debaixo de viadutos, das chaminés, das torneiras,
inundando tudo com uma correnteza de palavras confusas.
Contudo algo me faz sentir um vazio em suas frases.
Atrás dos versos, nas entrelinhas, nos pensadores.
Não saberia dizer o que é, mas está ali. Escondido dentro deles.

É uma invasão de poetas, uma revolução letrada.
Eles tomaram o mundo com seus gritos poéticos,
seus escritos incompreendidos pela atualidade.
Que seja, eles tem tanto direito quanto qualquer um.
Afinal quem seria capaz de mudar suas convicções,
suas missões tão importantes, suas ideologias...
Que sejam Poetas! 

Existem poetas de todos os tipos:
Garotos que acreditam saber de tudo,
e fazem as melhores poesias do mundo,
para eles.
Malucos que escrevem qualquer bobagem metafísica,
que é ininteligível, até por eles mesmos.
Quarentonas que escrevem qualquer mensagem bonita e positiva
que consiga ser colocada em versos.
Intelectuais que usam palavras dificílimas, 
e se perdem em seus discursos,
mas nunca chegam à conclusão alguma.
Jovens ingênuos que fazem versos
esperando que o sucesso bata à porta.
Poetas bêbados que não pensam em nada,
e são mais bêbados do que poetas.

E eu. Eu perdido nessa corrente literária,
sendo arrastado por movimentos até a praia
até o nada, até o fim, até lá.
Eu que pouco chego a existir,
que não me encaixo em lugar nenhum,
estranho até aos estrangeiros.
Perdido dos perdidos,
retardatário, bizarro, incapaz de ser 
qualquer coisa além de ridículo.

Mesmo assim, sei que não sou o único.
Não sou único, em nenhum sentido.
Será que eles sabem que são como eu?
Será que eles conseguem ver, que chegam a beirar...
Não, não importa.

O que incomoda é ver que eles precisam do apoio
dos colegas, que também são poetas, e de seus elogios.
Os elogios são o alimento desses poetas,
são tão necessários quanto o ar, ou coisa que o valha.


O estranho é ver que a maior parte dos "poemas"
não dizem nada,
absolutamente nada!
Isto diz algo, 
que há poetas por todo lado,
mas que existem poucos textos dignos de serem poemas,
ou que existem escritores em toda parte,
mas poetas de verdade são poucos.


domingo, julho 3

Sob um cachecol e um gorro,
escondo meu rosto.
Culpo o frio.

Sob regras de conduta,
escondo meus modos
Culpo os outros.

Sob uma pele intransponível,
escondo-me por inteiro
Culpo a vida.

sábado, julho 2

Ah! Sol criado pelo homem!
Luz frágil, que se apaga
pelos caprichos
de um dedo.

Que torna a noite clara
pontualmente
ao longo da rua.

Consegue ser essencial,
mesmo sendo efêmera,
elétrica, limitada,
tão tênue, tão... Humana.