terça-feira, setembro 27

Teatro em progressão

Vou até o espelho,
olho profundamente
Nos buracos dos meus olhos.
Rasgo o primeiro véu
De carne

Não sou eu,
Atrás dessa máscara
Tem um rosto de cera,
Marmóreo,
Estático.
A raiva cresce
e a cera se derrete
pingando na pia.

Ainda não sou eu
Embaixo da cera.
Este rosto é de ferro,
Frio e duro,
Aqui estão as lâminas
Dos meus olhos.
Elas rasgam tudo com seu fio de soslaio.
O peso é insustentável,
E a máscara cai.

Onde estava o ferro
agora são chamas,
O meu rosto de magma,
O meu rosto ígneo,
Passional.
Um grito enraivecido,
As chamas se projetam em labaredas
Da minha boca.
O meu rosto se esvai
Em vapores de sensações.

Agora a máscara é de madeira,
Mas não sou eu ainda.
Minha inquebrável cara de Mogno.
Os cupins saem do meu nariz
E mastigam a minha face.
Embaixo da madeira
Tem um semblante enfaixado.

As faixas escondem as cicatrizes
Que os tempos cortaram em meu rosto.
Marcas em cima de marcas
E tempos em cima de tempos.
Desenrolo as faixas lentamente,
Deitando-as na pia.

Olho para o espelho,
E vejo o meu corpo decapitado.
Ainda não sou eu.

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