segunda-feira, outubro 31

Ato Três, Cena Um


Mais um sonho com o meu quarto.

Fico deitado por algumas horas
Procurando uma saída
Para o labirinto da minha cama.

Não consigo.

Sinto que se passam anos comigo e eu aqui,
Na cama, sonhando acordado.

Vou ao banheiro e ligo o chuveiro.
Cachinhos dourados.
Olho o espelho embaçado.
Vejo meu rosto turvo e pouco familiar.
Olhos de cigano oblíquo e dissimulado,
Mas estes nada tem a ver com os mares.

Os meus lábios sufocam um grito,
Minhas mãos estrangulam a pia e
Meus olhos, ódio.

Dispo-me da minha alma e vou até o chuveiro,
As lágrimas dele pingam por dezenas de olhos
E escorrem pelo meu corpo.
Meus sonhos saem com água e sabão
Depois rastejam moribundos até o ralo.
Meu corpo cai no chão,
Como se cai na realidade.
Minha cabeça tomba para trás,
Eu gargarejo um gemido sufocado.

Fecho os olhos e me afogo em mim.
Aqui estou sujo,
Aqui aonde as lágrimas não chegam,
Nem sabão,
Nem nada,
Nem ninguém.

As gotas suicidas saltam do chuveiro.
Parte de mim vai com elas
Em uma viagem líquida
Pelos infinitos agoras
Até um ralo de sete palmos.

Enquanto isso, eu continuo sentado.
Observando os caminhos que nós fazemos até lá.
Estático e pingando vida.

sábado, outubro 29

Uma noite

Uma garrafa de conhaque e um quarto escuro.
Tudo o que pode ser ouvido: o barulho do ar na garrafa,
Um eventual suspiro, o líquido descendo angustiado na garganta, grosso, e
Algum barulho crepitante da brasa de um cigarro.

Os braços apoiados nos joelhos,
A garrafa entre os pés e
Mil frases presas na queimação do drink.
O copo já não existia, e o que resolvia o problema era o gargalo.

Por algum mistério a cabeça pesada levanta,
Olha em volta à procura de um motivo.

Nada.

Novamente a cabeça cai entre os ombros como um pênis murcho.
Nada é mais estúpido que o sexo nessas situações.

Sem nenhuma perturbação.
A calmaria antes da tempestade,
O céu fica mais negro antes de nascer o dia.
Mil outras frases prontas foram vomitadas por sua consciência,
Como mais tarde talvez faria sua boca,
Contra-argumentando todas as bobagens que sua mente engolira.

Algumas vezes a paz perturba mais que a guerra

Naquele corpo
A paz era uma guerra interna.

terça-feira, outubro 25

Poema impossível em inglês


Estou cansado
E estou cansado de estar cansado.
Não, o verbo está errado.
Não estou cansado de “estar”,
Estou cansado de “ser”.
Estou cansado por ser
Um ser qualquer
Que se cansou de seu ser.

Seja lá como for,
Decidi que seria
Não importando como fosse.
Então sigo cansado,
E cansado é como sou, estou,
Serei e estarei.

domingo, outubro 9

De olhos abertos

Vi além de mim e
Vi você

              Vi além de você e
Vi a mim

Vi a mim em você
       Via você em mim

           Vi você tão bem
                 Que vi a mim
  Também.

                             Mas vi nós tão bem

Que vi que seria melhor
             Fechar os olhos
E ver o nada entre nós dois

domingo, outubro 2

Omniverso

Eu olho para o céu.
Ele é tão antigo...
Suas barbas brancas
Flutuam como nuvens.

Olho para os prédios.
São imponentes e duros.
Como seus corações de pedra,
Que bombeiam eletrecidade.

Olho para mim.
E me vejo.
Mas sou apenas passageiro
Neste ônibus cósmico dos tempos.

O céu novamente.
Quantas gerações olharam para ele?
Quantas olharão?
Mesmo assim, ele está fadado ao fim.

Os prédios frágeis estão pendurados no planeta,
Que com um espasmo muscular
Colocaria-os todos no chão.

E eu...

Eu, os prédios e o céu,
Um dia não seremos mais
Que lembranças remotas na memória do Universo.