segunda-feira, outubro 31

Ato Três, Cena Um


Mais um sonho com o meu quarto.

Fico deitado por algumas horas
Procurando uma saída
Para o labirinto da minha cama.

Não consigo.

Sinto que se passam anos comigo e eu aqui,
Na cama, sonhando acordado.

Vou ao banheiro e ligo o chuveiro.
Cachinhos dourados.
Olho o espelho embaçado.
Vejo meu rosto turvo e pouco familiar.
Olhos de cigano oblíquo e dissimulado,
Mas estes nada tem a ver com os mares.

Os meus lábios sufocam um grito,
Minhas mãos estrangulam a pia e
Meus olhos, ódio.

Dispo-me da minha alma e vou até o chuveiro,
As lágrimas dele pingam por dezenas de olhos
E escorrem pelo meu corpo.
Meus sonhos saem com água e sabão
Depois rastejam moribundos até o ralo.
Meu corpo cai no chão,
Como se cai na realidade.
Minha cabeça tomba para trás,
Eu gargarejo um gemido sufocado.

Fecho os olhos e me afogo em mim.
Aqui estou sujo,
Aqui aonde as lágrimas não chegam,
Nem sabão,
Nem nada,
Nem ninguém.

As gotas suicidas saltam do chuveiro.
Parte de mim vai com elas
Em uma viagem líquida
Pelos infinitos agoras
Até um ralo de sete palmos.

Enquanto isso, eu continuo sentado.
Observando os caminhos que nós fazemos até lá.
Estático e pingando vida.

4 comentários:

  1. Que poema legal, cheio de imagens inusitadas e poéticas. Adorei. Parabéns.

    ResponderExcluir
  2. Será então, a preparação para a tragédia do segundo ato?

    ResponderExcluir
  3. Não poeta da colina, essa cena é a que Hamlet faz o discurso tão famoso do ser ou não ser.

    ResponderExcluir