sábado, outubro 27

À metade afastada


Uma parte de mim foi arrancada.
Perdi-a austero.
Nada que importasse
Porque nada importa.
Nada existe, Górgias, nada existe.
Nem isso,
Pois ao pronunciar “nada”  já isto se preencheu e...
Foi-se.
Perdi-a também.

A manhã,
E a manhã,
E a manhã
Rasteja pelas minhas veias, e eu chamo-a de sangue.
Chamarei-a assim, porque esqueci-me do futuro.
Deixei o presente de lado, esquivei-me.

Nada deixou-me mais
Petrificado do que
...
Foi-se.
Não importa mais também.
A todo momento:
“Uma parte de mim foi arrancada.”

Mesmo que eu deixe este poema de lado,
Ou ignore o resto,
Borre as letras com lágrimas,
Sangue, ou qualquer outra bobagem,
A verdade continuará lá
Observando-me por trás das minhas-retinas-tão-fatigadas,
Dilacerando minhas infinitas fugas,
E me pegando com seus guindastes sofísticos.

Ainda que eu não esteja lendo isto,
Destrua as palavras, ou páginas se preferir,
A verdade continuará me espreitando sorrateiramente.
E, vez por outra,
Espalhando seus tentáculos pelo meu corpo,
Arrastando-me para perto,
E com seus olhos imensos rosna-me gentilmente:
“Você se esqueceu de mim, mas eu não me esqueci de você”.

terça-feira, julho 10

Cuco


                Me sinto como um relógio.
                Cheio de engrenagens autômatas
                Que giram incessantemente fazendo barulhos.

                Tic, estou bem.
                Tac, nem tanto.
               
                Todas as roldanas e rodas
                Trincam como meus dentes e rangem como meus ossos.
               
Tic.
Tac.
Tic.
Tac.

                Sou um relógio que não marca as horas.
                Não tenho baterias.
                Sem devoluções.
                Sem trocas.

                Quebrei, e não posso culpar o vendedor.
                Apenas...
                Tic tac
Tic tac
Tic tac
Tic tac para sempre.

sábado, junho 23

Para Louis


Eu vejo árvores carbonizadas, rosas atômicas também.
Vejo-as sendo comidas por mim e por você,
E penso comigo mesmo: “Que mundo maravilhoso”.

Eu vejo o céu cinza, e lembro que um dia via nuvens.
O dia negramente amaldiçoado, a noite iluminadas eletricamente,
E penso comigo mesmo: “Que mundo maravilhoso”.

As cores do arco íris tão corrosivas no céu
Também estão na cara dos transeuntes.
Vejo amigos apertando as mãos, dizendo: “Tudo bem?”.
Eles dizem, na verdade: “Tenho pressa”.

Ouço bebês sufocados com seus cordões umbilicais, assisto-os morrer.
Eles aprenderiam mais do que gostariam,
E penso comigo mesmo: “Que mundo maravilhoso”.

Para você


Não quero que abra uma fenda no braço.
Não quero mais sangue.
Nunca quis.
Quero que você o abrace bem forte.
Chore, se quiser.
Se chorar, não soluce.
Lamba as suas feridas.
Dance um tango.
Talvez, se possível, me esqueça.
Ponha a culpa em mim.
 Não importei muito.
Sou desses que passam de lado.
Um café nunca foi mais do que uma desculpa
Para afogar a solidão.
Não venha com “eu te amo”.
Nós dois sabemos como acaba isso.
Por favor, não diga isso.
Eu nunca te amei. Você nunca me amou.
Sempre tivemos orgulho de ver o reflexo próprio.
Como somos perto do outro.
Não importa mais.
Não interessa.
Você sabe muito bem que não importa.
Sorria.
Seus dentes são bonitos.
Esqueça o filtro solar.
Não se preocupe comigo.
Eu me viro.
Não vou morrer de amor.
Se até hoje não morri, não é agora que morro.
Prometa que vai ficar bem.
Não se mate, nem se corte.
Não complique também.
Tente existir menos, por favor.
Acho que um dia você me entenderá.
Quero acreditar nisso.
Olhe para baixo, mas siga em frente.
Sinto a sua falta, mas não importará.
Um dia eu entenderei.
Vamos continuar assim.
Assim está quase decente.
Quase bom. Quase bonito.
Quase civilizado.
Quase fomos alguma coisa.

quinta-feira, maio 31

Ecce Homo

Termino de comer meu cup noodles.
Acendo um cigarro e bato as cinzas dentro do copo.
A garrafa de coca cola está vazia.
Um tímpano tampado com um fone de ouvido.
Meias e moletom pretos, camiseta e calça jeans azul.

Sou um clichê ambulante.
Eu sei. Eu sei.

A fumaça entra no meu olho.
Eu olho para a varandinha do apartamento:
Só vejo um pedaço do céu.
Todo o resto está tampado por prédios.
Fecho os olhos e não vejo nada.

Bato as cinzas no copo de novo.
Respiro fundo e limpo a garganta.
Olho para o pacote de queijo ralado.
Suspiro.

Ouço vozes em meu ouvido de pessoas que não estão aqui.
Ouço pessoas conversando vários andares abaixo.
Tiro o fone de ouvido.
Uma frase me vem a mente:
"Confuso
Demasiado confuso".
A

ARO

A RUA

ARRUAÇA

A RUA SABE!

sexta-feira, maio 4

Um sorriso.


Por falta de coragem eu me arrasto pelos minutos
Como quem rasteja até a privada e vomita o mundo.

Se o senhor, ou a senhora, me permite, é claro.
Vou ali regurgitar todas os sapos que engoli para não exigir o silêncio.
Com um argumento falacioso qualquer,
Só pelo prazer de degustar a apatia:
Não me importo.
Não faço questão de transparecer isso.
Apenas sorrio e concordo.

Tem toda a razão, senhor(a).
Não devo ser tão pessimista.
A vida é boa.
Bela. Bonita. Digna. Justa.
Com certeza.
Eu não diria melhor.

Só tem uma perninha saltando pela minha boca:
O problema é chamar isso que a gente vive de vida.

(Para Lucas Ribeiro)

domingo, fevereiro 26

Não pense.
Se pensar, não diga.
Se disser, cuidado.
Se cuidado fosse tudo,
Seguro não morria de velho.

sábado, fevereiro 25

Eu vejo uma moça.
Ela está sentada com as pernas cruzadas.
Eu estou em outra mesa.
Também com as pernas cruzadas.
Ela não me vê porque le um livro.

Eu olho para seus sapatos no chão,
Depois subo até seus cabelos.
Ela vira a página.

O meu café chega.
Eu fico concentrado nele.
Ela some na fumaça de um cigarro.
Eu fico preso em mim agora,
Observando um pedaço de ferro.

Depois de algum tempo,
Olho para sua cadeira.
Vazia.
Eu também
Com as pernas cruzadas.

sábado, fevereiro 18

Imagine um cego.
Isso.
Agora outro guiando o primeiro.

Então...
Aonde estamos indo?