sábado, junho 23

Para Louis


Eu vejo árvores carbonizadas, rosas atômicas também.
Vejo-as sendo comidas por mim e por você,
E penso comigo mesmo: “Que mundo maravilhoso”.

Eu vejo o céu cinza, e lembro que um dia via nuvens.
O dia negramente amaldiçoado, a noite iluminadas eletricamente,
E penso comigo mesmo: “Que mundo maravilhoso”.

As cores do arco íris tão corrosivas no céu
Também estão na cara dos transeuntes.
Vejo amigos apertando as mãos, dizendo: “Tudo bem?”.
Eles dizem, na verdade: “Tenho pressa”.

Ouço bebês sufocados com seus cordões umbilicais, assisto-os morrer.
Eles aprenderiam mais do que gostariam,
E penso comigo mesmo: “Que mundo maravilhoso”.

Para você


Não quero que abra uma fenda no braço.
Não quero mais sangue.
Nunca quis.
Quero que você o abrace bem forte.
Chore, se quiser.
Se chorar, não soluce.
Lamba as suas feridas.
Dance um tango.
Talvez, se possível, me esqueça.
Ponha a culpa em mim.
 Não importei muito.
Sou desses que passam de lado.
Um café nunca foi mais do que uma desculpa
Para afogar a solidão.
Não venha com “eu te amo”.
Nós dois sabemos como acaba isso.
Por favor, não diga isso.
Eu nunca te amei. Você nunca me amou.
Sempre tivemos orgulho de ver o reflexo próprio.
Como somos perto do outro.
Não importa mais.
Não interessa.
Você sabe muito bem que não importa.
Sorria.
Seus dentes são bonitos.
Esqueça o filtro solar.
Não se preocupe comigo.
Eu me viro.
Não vou morrer de amor.
Se até hoje não morri, não é agora que morro.
Prometa que vai ficar bem.
Não se mate, nem se corte.
Não complique também.
Tente existir menos, por favor.
Acho que um dia você me entenderá.
Quero acreditar nisso.
Olhe para baixo, mas siga em frente.
Sinto a sua falta, mas não importará.
Um dia eu entenderei.
Vamos continuar assim.
Assim está quase decente.
Quase bom. Quase bonito.
Quase civilizado.
Quase fomos alguma coisa.