sábado, outubro 27

À metade afastada


Uma parte de mim foi arrancada.
Perdi-a austero.
Nada que importasse
Porque nada importa.
Nada existe, Górgias, nada existe.
Nem isso,
Pois ao pronunciar “nada”  já isto se preencheu e...
Foi-se.
Perdi-a também.

A manhã,
E a manhã,
E a manhã
Rasteja pelas minhas veias, e eu chamo-a de sangue.
Chamarei-a assim, porque esqueci-me do futuro.
Deixei o presente de lado, esquivei-me.

Nada deixou-me mais
Petrificado do que
...
Foi-se.
Não importa mais também.
A todo momento:
“Uma parte de mim foi arrancada.”

Mesmo que eu deixe este poema de lado,
Ou ignore o resto,
Borre as letras com lágrimas,
Sangue, ou qualquer outra bobagem,
A verdade continuará lá
Observando-me por trás das minhas-retinas-tão-fatigadas,
Dilacerando minhas infinitas fugas,
E me pegando com seus guindastes sofísticos.

Ainda que eu não esteja lendo isto,
Destrua as palavras, ou páginas se preferir,
A verdade continuará me espreitando sorrateiramente.
E, vez por outra,
Espalhando seus tentáculos pelo meu corpo,
Arrastando-me para perto,
E com seus olhos imensos rosna-me gentilmente:
“Você se esqueceu de mim, mas eu não me esqueci de você”.