quinta-feira, outubro 24

Atlas esmagado pelo peso de um grão de areia
E curvado como um pau-de-sebo barroco
Garoto tentando subir e caindo e quebrando os ossos
E chorando em um banheiro imaginário para que ninguém veja
Porém persistindo pelo sebo ou pela lama
Com a dor e a força das novas cicatrizes
Movido à óleo e ódio feito carro velho em ladeira
Empurrando o peso das eras como Sísifo
Ainda que sabendo ser só um castigo divino
Que sem motivo não foi expiado no sacrifício de Cristo
E por isso pago às prestações de juros extorsivos
Para evitar a fúria celestial do maior agiota da História
Um urubu urbano que só sabe se empoleirar sobre prédios
Observando o movimento dos objetos estranhos na rua
Procurando algo para se alimentar talvez um rato
Talvez os restos homem morto quem sabe pelo stress da terrível
Rotina-casa-carro-trabalho-almoço-trabalho-carro-casa-jantar-cama
Talvez um rato mesmo
Ou um ser tão insignificante que se proponha a se esconder
Sob mares de papéis recadinhos e papelões
Atormentados por Poseidon que sacudindo suas mãos
Lança tsunamis de conflitos sobrepondo-se uns aos outros e
Fundindo-se em avalanches líquidas como o alicerce de uma casa
Jogando com o barco de Ulisses um videojogo inocente
Uma criança jogando sal em uma lesma ou apedrejando gatos
Para descobrir o que significa violência gratuita ou inocência
Ignorando que nisto reside um dilema do tamanho do grão de areia
Que sobrepuja Atlas e o faz contorcer-se como um humano
Baleado na barriga caído sobre um cemitério de utopias à noite
Sangrando sal e chorando baixinho lágrimas de chumbo
Entre gritos de ódio e pedidos por ajuda mas como Tântalo
Pode apenas roçar os dedos nas mãos amigas e estas lhe escaparam
Implorar para outros ouvidos e estes se tornarem alheios
Sem opção além de observar a vida evaporando para formar
Caminhos serpenteantes e salinos através do vômito seco
Enchurradas e baratas e tingindo ratos de vermelho
Deixando para trás toda a pouca dignidade acumulada por uma vida
Na esperança de conseguir voltar para o corpo
Seguindo a trilha de miúdos como João e Maria
Mas fracassando como o garoto do pau-de-sebo
Com a diferença de não ter outra chance com ou sem cicatrizes
E tentando encontrar a ironia disso tudo
Apenas para descobrir o buraco de uma boca-de-lobo
Como uma criança apedrejando gatos descobriu o efeito da morte
Aquele homem agora uma criança filha de alguém
Descobre-se solitário em um bote sob a fúria de Poseidon
Carregando o peso absurdo como Atlas
De uma vida que se esvai como um grão de areia em uma ampulheta.

Um comentário:

  1. um belo zumbi ! cade o amor ?
    hehe

    gostei , volte a escrever com frequência rafael!

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