terça-feira, dezembro 3

Pedras sobre pedras



     Eu me lembro.
     O dia em que eu soube.
     Viúvo de um casamento cigano.
     Ela tinha o rosto sereno, disseram.
             
     Eu não me lembro do enterro.
     Não pude ir.
     Nem me lembro de sua boca rasgada.

     Eu me lembro.
     Linhas brancas e noites escuras.
     Favelas e festas.
     Abstinência. Solidão.
     Não souberam.

     Não me lembro do que me fez parar.
     Nem do que eu disse para os outros.
     Acho que apenas sumi.

     Eu me lembro, sim.
Ela, caída no chão, chorando.
     Eu sentado na varanda, fumando.
     Ela implorava.
Eu mandei que juntasse suas tralhas.
Ela ficou mais um ou dois meses.
Não me orgulho disso.

     Não me lembro de ter chorado por ela.
     Nem de que fim levou seu boneco.
     Nem suas fotos.

     Eu me lembro.
Abandonei tudo.
     Saí da cidade.
     Larguei dois amores e meio.
    
     Não me lembro de sentir remorso.
     Não me lembro de querer voltar.
     Não me lembro de como era.

     Eu me lembro.
     Aprendi a cuspir fogo, e malabarismo.
     Vi a casa cair pro meu lado.
     Também me lembro do banheiro.
     As lágrimas no chuveiro.
     A definição de clichê.
     Elas me lembram daquelas que eram vermelhas.
     Oito anos secos depois e eu não me esqueci.
     Eu não me lembro de como se esquece.
     Não me lembro de como sobrevivi.
     Nem de uma infância feliz.
    
     Eu me lembrei.
     Agora quero esquecer.
     Mas me lembro que esqueci.
     Esqueci de aprender a perdoar.
     Esqueci como confiar em alguém.

     Minha memória não anda boa, sabe?

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