terça-feira, março 18

Poema de simulação

Os títulos já se perderam nos bolsos dos costumes.
O esquete termina.
Um comediante morre de rir.
Cai a cortina de trama fina,
Feita de papelão, e não de veludo.


Sozinho no camarim observa a maquiagem dissolver-se:
O vermelho-sangue do batom tomado dos lábios pelo rancor,
A pureza do guacho branco escorreu salgada dos olhos à boca,
O nariz plástico triturado sobre a penteadeira.
Não sobrou pierrô para o próximo espetáculo.


No espelho há um homem de cara limpa e barba feita
Observando o fenômeno da reflexão.
Os pagantes exigem as risadas até o último segundo,
Mas, depois da atração, sozinho no camarim,
Sem um palhaço que o faça rir,
Gargalha sozinho imaginando a tristeza
De quem precisa pagar para ser feliz.